Fotografia: os pioneiros

 

Carlos Relvas

Além de fotógrafo, foi ainda político e lavrador, criador de cavalos e cavaleiro, inventor, e músico. Abastado proprietário agrícola ribatejano, Relvas foi exímio cavaleiro e toureiro amador, atirador de pistola e de carabina e jogador de pau, de florete e de sabre, ficou especialmente conhecido, no país e no estrangeiro, pela sua actividade como fotógrafo amador.

Carlos Relvas
Carlos Relvas, 1838–1894

Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas de Campos exerceu a sua actividade de fotógrafo amador entre 1860 e 1862.

Isso permitiu-lhe o contacto com as técnicas que começavam a transformar a Fotografia numa arte “popular”. A arte fotográfica foi a sua grande paixão, a par com a que nutria pela arte tauromáquica, produzindo uma obra de grande envergadura, onde se destaca também a casa-estúdio, que construiu no jardim do Palácio do Outeiro, a sua residência na Golegã.

Possuidor de cavalos magníficos, sabia ensiná-los a primor, e realizava com eles proezas extraordinárias, sendo um perfeito gentleman-rider. Um dos seus maiores triunfos foi no Porto, numas corridas em que alcançou grande vitória, montando no seu cavalo Chasseur d'Afrique.

Por muitos anos toureou a cavalo e a pé; era dextro, tanto como cavaleiro, como bandarilheiro, aliando à sua destreza de cavaleiro e grande firmeza uma serenidade de ânimo pouco vulgar.

Casado em primeiras núpcias com Margarida Amália Mendes de Azevedo e Vasconcelos, deste casamento teve quatro filhos, entre os quais se destacou como figura pública José Relvas.

Carlos Relvas foi membro da Sociedade Francesa de Fotografia.

Em 1882, organiza-se uma exposição retrospectiva da Arte Ornamental produzidas em Portugal até ao final do século XVIII, reunindo no Palácio do Marques de Pombal cerca de 4.000 peças oriundas de colecções públicas e privadas tanto de Portugal como do estrangeiro.

Por essa altura surge à comissão organizadora a ideia de reunir em álbum as imagens dos vários objectos que no final teriam de ser novamente dispersos. Carlos Relvas de pronto abraça a ideia e constrói nos jardins um atelier para a realização da tarefa e durante vinte dias realiza os quinhentos e doze clichés de que foi composta a obra.

Como forma de desligar a ideia de qualquer interesse pessoal no trabalho dou todo o lucro do trabalho à Misericórdia e Montepio Popular da Golegã, aos subscritores dirigiu uma carta pessoal em que todo o trabalho era explicado, bem como o destino do pagamento do mesmo.

Com a morte da sua esposa em 1887, volta a casar um ano mais tarde com Mariana Correia, decisão que não foi bem aceite por todos, particularmente o seu filho José Relvas, que vende a residência familiar à Câmara da Golegã.

Carlos Relvas vai viver para o estúdio e vê-se obrigado a proceder a algumas adaptação que obrigam a um abrandamento da sua actividade. Morre em Janeiro de 1894 devido a uma septicemia após um acidente de cavalo nas ruas da Golegã.

A Casa-Museu

Conjunto arquitectónico oitocentista, da autoria do arquitecto Henrique Carlos Afonso, constituído por um imóvel e jardim do qual sobressaem algumas espécies exóticas, um lago e um parque infantil. Hoje, é a Casa Museu de Carlos Relvas.

Do acervo aqui existente destacam-se o arquivo fotográfico, mobiliário e instrumentos musicais, para além da biblioteca particular de Carlos Relvas que conta com cerca de quatro mil volumes.

Carlos Relvas
Carlos Relvas, Auto-retrato c. 1870

A construção do edifício, que se destinava a funcionar como estúdio e laboratório de fotografia, ocorreu entre 1872 e 1875. Alguns anos mais tarde, em 1887, o imóvel sofreu obras de adaptação a residência o que ocasionou uma grande transformação no seu interior.

Trata-se de um edifício de dois pisos de planta longitudinal formado pela articulação de diversos corpos, com cobertura diferenciada em telhados de duas águas e em pavilhão.

Na fachada principal podemos ver os bustos de Nièpce e de Daguerre, os percursores da fotografia. Em 1981, o edifício foi doado à Câmara Municipal da Golegã que o transformou na Casa Museu Carlos Relvas.

A colecção Carlos Relvas

Por convite da Câmara Municipal da Golegã, a Luis Pavão Limitada iniciou em 2010 o tratamento de conservação da coleção de fotografia de Carlos Relvas, com uma equipa técnica (de conservação de fotografia) instalada na Biblioteca Municipal da Golegã.

Esta coleção, única no panorama da fotografia portuguesa, apresenta sérios problemas de conservação, requerendo uma intervenção especializada e qualificada para o seu restauro. Os negativos em vidro, de Carlos Relvas, datam de 1864 até 1893, contudo, existem negativos posteriores de outros fotógrafos.

Com aproximadamente 12.000 negativos para tratar, dos quais cerca de 5.000 são no processo de colódio húmido, sendo os restantes, de anos posteriores, em gelatina e prata. A colecção que é apenas parcialmente conhecida, é muito interessante do ponto de vista da inovação e criatividade do autor.

Predominam os retratos de estúdio, auto-retratos de Carlos Relvas (muito imaginativos), retratos de grupo, animais, cavalos, arte equestre, paisagens da região da Golegã, vale de Santarém, atividades agrícola, cheias no vale do Tejo, aspetos do rio Douro, cidade do Porto, Foz do Douro, cidade de Lisboa e Rio Tejo, viagens de Carlos Relvas pela Europa, inventos e realizações do autor.

Após a morte do autor, a coleção manteve-se encerrada numa dependência no jardim do estúdio Relvas, durante cerca de 100 anos. Foi adquirida pela Câmara Municipal da Golegã em fevereiro de 1978. Em 1995, ao abrigo de um protocolo com Ministério da Cultura, foi levada para Lisboa, para tratamento de restauro, no Instituto Português de Museus, Divisão de Documentação e Fotografia, onde se manteve durante 13 anos.

Foi alvo de uma exposição em Lisboa e de um catálogo, publicado em Junho de 2003. A coleção regressou à Golegã em Outubro de 2008, sendo instalada provisoriamente numa câmara climatizada na Biblioteca Municipal. Está a ser construído um depósito frio, climatizado, moderno, numa dependência do estúdio Relvas, que irá dispor de isolamento térmico e sistema de controlo ambiental e filtragem do ar, adequado para este material, seu acondicionamento e preservação a longo prazo.

Esta colecção foi totalmente digitalizada em 2008, numa colaboração entre a CMG, a LUPA e o Instituto Politécnico de Tomar.

Links externos

http://www.casarelvas.com/site/pt/index.php

http://www.imagensrelvas.com

Temas relacionados

William Henry Fox Talbot (1800-1877)

Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833)

Louis Jacques Mandé Daguerre (1789-1851)

Bibliografia

Página actualizada em 3.2013

   

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