Fotografia: as exposições

 

Exposição Internacional de Photographia

Realizada no Porto, 1886

1886, 10 de Abril - Revista A Vida Moderna 7º Ano / nº 10 / Pag. 2 A Arte entre nós

A abertura da Exposição Internacional de Photographia abriu-se domingo ultimo. O Palácio de Crystal mais uma vez realizou uma d’essas gloriosas festas do trabalho as quaes a gente não pode deixar de ver sem sentir os olhos molhados por uma commovente sensação de orgulho e de alegria.

Mais uma festa de paz, e da intelligencia humana. Realisar uma exposição de photographia n’um paiz onde não abundam elementos é uma prova de coragem de abnegação suprema.

O certâmen que agora está attrahindo as attenções do Porto, é um d’esses eloquentes testemunhos de que na nossa terra se trabalha, e que n’uma nação onde não há riquezas, onde não há publico, onde não há essas enormes fontes de movimento que há no estrangeiro, existem ainda meia dúzia de vigorosas organisações doudas pela arte e pelo bello, que fazem da fraqueza força e do enthusiasmo disciplinador progresso.

Bem hajam os que assim pensam, os que assim trabalham, e os que vão luctando atravez d’este meio tão indifferente.

A Exposição de Photographia é um documento interessante e alto de que não vivemos affastados da corrente que lá fora vae levando tudo nas azas do progresso para paizes luminosos de felicidade e de gloria. E se o concurso dos photographos nacionaes não foi tão numeroso, não sabemos porque razões justificadoras da sua ausência, lá está o núcleo do que temos de mais ilustre e de mais perfeito.

A nossa revista não dispõe de espaço para fazermos uma analyse detalhada, e mesmo que o tivéssemos não o faríamos. Entendemos que o jornalismo, nas resenhas d’esta espécie, deve apresentar apenas uma impressão do todo, fazendo notar as superioridades mais notáveis, e não entrar em minudências de processo, de factura, e correr nome a nome com um furor de critica, que muitas vezes se aplica poregual a uns poucos de indivíduos. A impressão geral, é quanto basta, aliás o nosso papel fica sendo o de um individuo fazendo um cathalogo, que nem ao próprio leitor interessa.

A Exposição de Photographia foi promovida pela Photographia Moderna, esse atelier distinctissimo, que pode justamente bater-se com os ateliers do estrangeiro. Esta bella ideia foi auxiliada pela digna Direcção do Palácio de Crystal, e que por este motivo é merecedora dos maiores encómios.

Na verdade proporcionar uma exposição nova, sem nenhum auxilio official, com os recursos limitados que há, é uma d’estas cousas para as quaes a gente passa pelo seu arrojo e pela sua grande vontade que ahi metteu ombros.

Muitos expositores nacionaes e estrangeiros reclamam as primasias da exposição, sem querermos distinguir logares, attrahe as attenções o photographo amador Carlos Relvas, com os seus numerosos clichés de uma delicadeza, de um effeito espantosos.

É bem difficil ir mais além na photographia. Cremos bem que não há perfeição superior, que não há disposição mais artística nem mesmo Robinson, o grande mestre, que não há subtileza de impressão mais fina... É um conjuncto soberbo, explendoroso. A Photographia Moderna é talvez a que se recommenda mais dos ateliers nacionaes. Apresenta paisagens soberbas, de um detalhe riquíssimo. Os seus retratos especialmente são os melhores que vemos na exposição.

Não há alli dureza de retoque; a luz é distribuida egualmente sem sacrifício de parte alguma. Depois segue-se a União, na sua soberba installação. Os seus retratos são magníficos e os seus clichés de plantas de um grande relevo e perfeição. Muito longe nos levaria a especialisação de outros trabalhos de photographos portuguezes e extrangeiros. A maior parte, porém, dos nossos bons collegas tem orientado bastante o publico para que tenhamos de expor aqui uma desenvolvida analyse.

Diremos por fim que teem representantes n’este grande certâmen: a França, Suissa, Inglaterra, Allemanha, Áustria, Hespanha, Brazil, Estados Unidos da América..

O Centro Artístico, apresenta alguns trabalhos de mérito, destinguindo-se notavelmente, em retraros os snrs. Marques de Oliveira e Souza Pinto pela correcção de desenho e firmeza com que são executados.


William Henry Fox Talbot (1800-1877)

Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833)

Louis Jacques Mandé Daguerre (1789-1851)

Bibliografia

Página actualizada em 3.2013

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